Assombrado quando os minutos se arrastam
O sino da igrejinha faz belém blém blão
Deu meia-noite, o galo já cantou
Seu Tranca-Rua é o dono da gira
Oi, corre, gira, que Ogum mandou
– cantiga popular de umbanda
Velha cidadezinha, baluarte do progresso, pela moral e os bons costumes, nem que quisera perdida num mapa ou nos grandes nomes históricos desde os tempos do onça e das capitanias. Uns bons anos mais antiga que a vizinha, esta crescida, porém ainda pueril, correndo atrás da imundície da província. Mas ficou para trás mesmo assim, excomungo e praga rogada de padre (não sei se era estrangeiro) linchado e chutado não têm vacina. Um ataúde deixado no trevo, um espantalho & um vagabundo à sombra do olmo.
Tem lá a igreja no centro, subindo a pracinha com coreto e mendigo, que já foi o homem do saco, mas isso faz tempo, acho que agora vive de aposentadoria (a pracinha também é perto do fórum). Todo dia é domingo e é um fim de tarde, mas não tem missa, céu de estanho ainda não cavocado de estrelas, lençol de duas nuvens matreiras. Um ventinho que não é vento nem faz barulho, as ruas estão todas em casa. Sobre os paralelepípedos que dançam sonolentos entre a igreja e a pracinha passa o rapaz, trazendo uma bicicleta enferrujada com uma carta de baralho na correia. Pára e senta na escadaria. Pode ser terça, quarta ou qualquer feira, mas não tem casamento. Pode ser hoje ou ontem. É quase de noite e a velha enrola fumo.
Antigamente ele não rezava (e vês que é novo), mas agora é de costume, quando lembrou do que se deu na estradinha da fazenda, tardão de madrugada, e olha que não acreditava mais em lobisomem, que na verdade era o açougueiro da vilinha perto da Veado. Tinha a impressão que uma árvore o estava seguindo, com raiz e tudo, sujando de terra a estrada de terra. Mas não era. O mesmo ventinho que não era vento, mas então fazendo um barulhinho que mal era barulho. Do meio do mato saiu um cachorro, depois outro e mais um, cada um bitelo e preto que nem o Cão, e os olhos avermelhados daquele que estava bebendo no inferno, cheio de carrapato.
– Se for o diabo então aparece.
Não é que o ventinho virou vento, o barulhete virou o latido das bestas e o rapaz sentiu um arrepio que nem flecha de arqueiro, que quase que sai do corpo. A memória foge dessas coisas e, sentado na escada diante da pracinha, não lembrou mais. A velha já puxava fumo, um olho de vidro procurando o rosto na madeira. Uma sauvinha se aproxima dele, que monta na bicicleta e vai embora. A carta de baralho marca um ritmo na correia. Detrás da igreja a imaginação se atiça, porteira das almas. Não tem casamento, nem missa, mas amanhã tem enterro sem velório. Eu sempre quis uma caveira de boi.
Deu meia-noite, o galo já cantou
Seu Tranca-Rua é o dono da gira
Oi, corre, gira, que Ogum mandou
– cantiga popular de umbanda
Velha cidadezinha, baluarte do progresso, pela moral e os bons costumes, nem que quisera perdida num mapa ou nos grandes nomes históricos desde os tempos do onça e das capitanias. Uns bons anos mais antiga que a vizinha, esta crescida, porém ainda pueril, correndo atrás da imundície da província. Mas ficou para trás mesmo assim, excomungo e praga rogada de padre (não sei se era estrangeiro) linchado e chutado não têm vacina. Um ataúde deixado no trevo, um espantalho & um vagabundo à sombra do olmo.
Tem lá a igreja no centro, subindo a pracinha com coreto e mendigo, que já foi o homem do saco, mas isso faz tempo, acho que agora vive de aposentadoria (a pracinha também é perto do fórum). Todo dia é domingo e é um fim de tarde, mas não tem missa, céu de estanho ainda não cavocado de estrelas, lençol de duas nuvens matreiras. Um ventinho que não é vento nem faz barulho, as ruas estão todas em casa. Sobre os paralelepípedos que dançam sonolentos entre a igreja e a pracinha passa o rapaz, trazendo uma bicicleta enferrujada com uma carta de baralho na correia. Pára e senta na escadaria. Pode ser terça, quarta ou qualquer feira, mas não tem casamento. Pode ser hoje ou ontem. É quase de noite e a velha enrola fumo.
Antigamente ele não rezava (e vês que é novo), mas agora é de costume, quando lembrou do que se deu na estradinha da fazenda, tardão de madrugada, e olha que não acreditava mais em lobisomem, que na verdade era o açougueiro da vilinha perto da Veado. Tinha a impressão que uma árvore o estava seguindo, com raiz e tudo, sujando de terra a estrada de terra. Mas não era. O mesmo ventinho que não era vento, mas então fazendo um barulhinho que mal era barulho. Do meio do mato saiu um cachorro, depois outro e mais um, cada um bitelo e preto que nem o Cão, e os olhos avermelhados daquele que estava bebendo no inferno, cheio de carrapato.
– Se for o diabo então aparece.
Não é que o ventinho virou vento, o barulhete virou o latido das bestas e o rapaz sentiu um arrepio que nem flecha de arqueiro, que quase que sai do corpo. A memória foge dessas coisas e, sentado na escada diante da pracinha, não lembrou mais. A velha já puxava fumo, um olho de vidro procurando o rosto na madeira. Uma sauvinha se aproxima dele, que monta na bicicleta e vai embora. A carta de baralho marca um ritmo na correia. Detrás da igreja a imaginação se atiça, porteira das almas. Não tem casamento, nem missa, mas amanhã tem enterro sem velório. Eu sempre quis uma caveira de boi.

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