sexta-feira, agosto 25, 2006

Conto para pessoas que já morreram

Advertência: deixai aqui toda a esperança, ó vós que entrais. (Só não a esqueceis quando fores embora.)

É de conhecimento geral que, na megalópole paulistana, capital opulenta do estado, é muito habitual, para aqueles que têm o costume de freqüentar pontos de concentração cultural e arredores, encontrar autores de poesia a abordar transeuntes no intuito de ofertar e vender sua produção lírica, seja impressa em papéis avulsos, geralmente ao preço de um real ou dois, seja compilada em volumes, comumente bancados do bolso do próprio autor. Não raro, tais self-made men portam-se de maneira despojada, até algo bucólica, adeptos que são de filosofias de vida hippies, alternativas ou zen, alguns até mesmo inspirados pela lembrança da fábula de Dom Quixote. Quanto à receptividade do público aos versos oferecidos, esta é variada: por exemplo, os entusiastas do descobrimento de incursões poéticas que não aquelas presentes nos círculos literários, acadêmicos e mesmo populares, no sentido de grande exposição, normalmente os aceitam avidamente; de modo semelhante procedem aquelas boas almas apenas interessadas em colaborar com os versejadores; e há ainda aqueles que simplesmente os recusam, com veemência ou não.

Isso sabido, tem-se a introdução ao episódio que lhes hei de narrar a seguir e que, por sua vez, por mais que ostente natureza fantástica e sobrenatural, pode ser confirmado e reafirmado impreterivelmente por fontes idôneas, como um colega de pena, por sinal dono da idéia de levar a anedota a prelo, testemunha indireta do ocorrido. Portanto, coloco a veracidade de minha narrativa tranqüilamente a toda e qualquer prova. Ei-la.

O episódio ocorreu, naturalmente, na citada cidade de São Paulo, por volta das sete horas duma noite do mês do cachorro louco, agosto, nas imediações de uma tradicional Universidade, uma livraria e um teatro, no bairro da Consolação ou Vila Buarque, a saber. Quem o protagoniza é um segundo colega de pena, com já dois romances publicados, Memórias de um Amnésio, de mais de seiscentas páginas, e o novíssimo No Silêncio da Bala, autor de vasto catálogo de novelas, contos e ensaios, amante da boa vida e de mulheres, mas com sabido feitio, desde a mais tenra juventude, pelas temáticas do oculto, de magia e mistério, da bruxaria e feitiçaria, e até mesmo dos cultos, da santeria, vodu, da maçonaria e sociedades secretas, da brincadeira do copo, do jogo do bicho, enfim, do misticismo em geral. Tal "fascínio", se é que podemos classificar como tal, não passava, a vista grossa, disso mesmo, de curiosidade, de interesse externo, nunca chegando de fato aos vieses práticos, até por convicção, cautela e muito cuidadinho do colega.

Pois bem, estava o protagonista, o colega de nome ..., caminhando pelas cercanias da área descrita e delimitada acima, depois de jantar num café, indo ao encontro de convivas para uma certa comemoração da qual não sei ou a qual não posso precisar com exatidão, mas, de qualquer maneira, irrelevante para esta história. Ao passar em frente do teatro, num arremedo de ladeira, eis que o colega depara-se com um daqueles autores cujo perfil foi traçado na introdução, vendendo seus poemas: um homem de seus quarenta e poucos anos, esquálido, longos cabelos preto-acinzentados, bigode e barba de profeta sem ver gilete há muito, medalhão pendurado no pescoço, roupas largas e a fleuma que vem de graça com o ofício.

Sendo também um homem de letras, é certo que o colega ... não despreza tal meio de atuação. Porém, tendo um compromisso, não estava com tempo para parar e ouvir a propaganda do homem, que, como esperado, abordou-lhe com o bordão de costume, já a exibir os panfletos:

– Gosta de poesia?

O colega ..., procurando uma maneira direta e prática de dispensar o ofertante, mas ao mesmo tempo sutil o suficiente para não ofendê-lo ou causar má impressão, rapidamente lembrou-se de uma colocação feita por um moço na mesma situação, o qual avizinhou-se na fila de um cinema, onde seria projetada a cinebiografia de um cantor de música country. Sem demora e sem pensar duas vezes, sabiamente valeu-se do instantâneo.

– Obrigado, mas o que eu leio mais são livros espíritas.

Cabe aqui salientar que a referência ao espiritismo nada tem a ver com os interesses escusos do colega ... comentados acima; tal associação nem mesmo passou-lhe pela cabeça, respeitando ele o espiritismo como religião i.e. doutrina i.e. filosofia de vida e nunca colocando-o em par com ocultismos. O que disse foi apenas a reprodução da resposta dada pelo rapaz na fila do cinema.

O homem então respondeu:
– Não tem problema.

Por motivos de força estranha, o colega ... deteve-se de caminhar mais adiante e voltou-se novamente para o homem, apenas para se arrepender de imediato de tê-lo feito, tão tenebrosa foi a presença que então se deu.

– Pois eu próprio sou um espírito de uma pessoa morta – continuou o homem.

O colega ... estava, afinal, na presença de um espectro! Uma entidade vinda do além. A aparição então tomou uma forma pavorosa, de manto negro e aspecto que me recuso a descrever aqui de tão horripilante, como sulcos na madeira formando a cara do diabo. Vale frisar que, de modo algum, afirma-se aqui que a sinistra figura provinha das bandas de Satã, longe disso, é apenas uma figuração utilizada com o intuito de simbologia descritiva (muito menos é feita apologia a tal natureza, se é que assim se pode chamar). Antes que o colega ..., boquiaberto, pudesse esboçar qualquer outra reação que não a de pavor e imobilidade, o espectro desapareceu num piscar de olhos, dissolvendo-se numa nuvem verde-musgo. Mistério.

Posteriormente ao episódio, e por certo superados os impactos de encontro tão inusitado e macabro, o colega ... narrou o ocorrido em diversas e variadas ocasiões, nunca se contradizendo e sempre com grande precisão de factualidade, o que, somado a minha amizade e admiração, garante-me embasamento para a defesa da autenticidade do relato. Contradigam-no, e àquele que o fizer com sucesso pagarei cinqüenta reais!

A moral, meus caros, de tão surpreendente anedota, é aquela: há mais mistérios entre o céu e a Terra do que entre uma boceta virgem e uma que já levou pau.

sábado, agosto 19, 2006

Assombrado quando os minutos se arrastam

O sino da igrejinha faz belém blém blão
Deu meia-noite, o galo já cantou
Seu Tranca-Rua é o dono da gira
Oi, corre, gira, que Ogum mandou

– cantiga popular de umbanda

Velha cidadezinha, baluarte do progresso, pela moral e os bons costumes, nem que quisera perdida num mapa ou nos grandes nomes históricos desde os tempos do onça e das capitanias. Uns bons anos mais antiga que a vizinha, esta crescida, porém ainda pueril, correndo atrás da imundície da província. Mas ficou para trás mesmo assim, excomungo e praga rogada de padre (não sei se era estrangeiro) linchado e chutado não têm vacina. Um ataúde deixado no trevo, um espantalho & um vagabundo à sombra do olmo.

Tem lá a igreja no centro, subindo a pracinha com coreto e mendigo, que já foi o homem do saco, mas isso faz tempo, acho que agora vive de aposentadoria (a pracinha também é perto do fórum). Todo dia é domingo e é um fim de tarde, mas não tem missa, céu de estanho ainda não cavocado de estrelas, lençol de duas nuvens matreiras. Um ventinho que não é vento nem faz barulho, as ruas estão todas em casa. Sobre os paralelepípedos que dançam sonolentos entre a igreja e a pracinha passa o rapaz, trazendo uma bicicleta enferrujada com uma carta de baralho na correia. Pára e senta na escadaria. Pode ser terça, quarta ou qualquer feira, mas não tem casamento. Pode ser hoje ou ontem. É quase de noite e a velha enrola fumo.

Antigamente ele não rezava (e vês que é novo), mas agora é de costume, quando lembrou do que se deu na estradinha da fazenda, tardão de madrugada, e olha que não acreditava mais em lobisomem, que na verdade era o açougueiro da vilinha perto da Veado. Tinha a impressão que uma árvore o estava seguindo, com raiz e tudo, sujando de terra a estrada de terra. Mas não era. O mesmo ventinho que não era vento, mas então fazendo um barulhinho que mal era barulho. Do meio do mato saiu um cachorro, depois outro e mais um, cada um bitelo e preto que nem o Cão, e os olhos avermelhados daquele que estava bebendo no inferno, cheio de carrapato.

– Se for o diabo então aparece.

Não é que o ventinho virou vento, o barulhete virou o latido das bestas e o rapaz sentiu um arrepio que nem flecha de arqueiro, que quase que sai do corpo. A memória foge dessas coisas e, sentado na escada diante da pracinha, não lembrou mais. A velha já puxava fumo, um olho de vidro procurando o rosto na madeira. Uma sauvinha se aproxima dele, que monta na bicicleta e vai embora. A carta de baralho marca um ritmo na correia. Detrás da igreja a imaginação se atiça, porteira das almas. Não tem casamento, nem missa, mas amanhã tem enterro sem velório. Eu sempre quis uma caveira de boi.

domingo, agosto 06, 2006

Retaliação

Were you there [when they crucified my Lord]?

terça-feira, agosto 01, 2006

A senzala em chamas

Gemeram entre cabeças a ponta do esporão,
a folha do não-me-toque
e o medo da solidão
– Zé Ramalho

Matei minha garota à beira do rio. Gotas de chuva caem feito doença venérea e peste no infinito sem-fundo do precipício da boa ventura, meio a uma clareira de fogo. Bonança e mau presságio, toda minha vida num solo de guitarra. A polaquinha corta a dama-da-noite com uma gilete.

– Te assombra uma grande mentira em forma de pecado.

Sombra de valquírias e ilusão de distorção; até parece que se pode levar-te a sério. Corri até o desfiladeiro, mas já era tarde demais. Um Mustang e uns vinte cartuchos foi o que mais me restou; quatro dias pela frente e hora extra nos necrotérios, que recompensa. Um lobo da estepe barganha a alma com o diabo, que beleza, a salvação espera por todos na outra margem desse pântano. Foi açoitado com línguas de trapo até confessar suas verdades numa metalingüística que não existia. Não os convenceu. Deleitem-se com pornografia póstuma no harém das canções noturnas.

– Teu irmão me deu um colar de pérolas.

Tomei o bonde na frente da loja de penhores. Era conduzido por uma mula castrada e de olhos vendados, ia a toda velocidade, tanto que, por pouco, eu ainda estaria mascateando um velho guarda-chuva ou dormindo na estação de metrô, dentro de um caixote de couro. Apesar da venda, a mula tinha belos olhos vermelhos (seriam apavorantes não estivessem vendados), como um coelho.

A carcaça de um dançarino sentou-se nas pedras para meditar. “Em algum lugar nas profundezas, ele ainda datilografa – e é aí que está a verdadeira beleza: poesia, pés descalços, jazz e sua obsessão com garotinhas”. Ouvindo a melodia da pastorella da misantropia badalar que nem um sino em suas entranhas, o artista ajoelha-se nas brasas e se lembra do gênio esquecido na vigésima-quinta hora.

Soube de seu caso de amor com as pedras. Horror de menina mimada, não acredito em você. Nem o calor da Louisiana faz o tempo passar tão devagar. Ou tão depressa?

Mais lenha. Para incendiar as escolas, bancos, partidos políticos, avenidas, universidades, shopping centers e gentes. Enquanto isso, o sexisme e a discriminação são usados indiscriminadamente por adolescentes lésbicas francesas como manifestação anti-moda. Trata-se de uma análise psicodélico-social fascista da vida em Suburbia, nos terreiros de umbanda, country clubs, fanatismo religioso, salões de baile, dormitórios e por aí afora.

Àqueles que restaram é que dedico meu coração, que é tão vagabundo.

We have come a long, long way
Only to die without knowing the pain