Conto para pessoas que já morreram
Advertência: deixai aqui toda a esperança, ó vós que entrais. (Só não a esqueceis quando fores embora.)
É de conhecimento geral que, na megalópole paulistana, capital opulenta do estado, é muito habitual, para aqueles que têm o costume de freqüentar pontos de concentração cultural e arredores, encontrar autores de poesia a abordar transeuntes no intuito de ofertar e vender sua produção lírica, seja impressa em papéis avulsos, geralmente ao preço de um real ou dois, seja compilada em volumes, comumente bancados do bolso do próprio autor. Não raro, tais self-made men portam-se de maneira despojada, até algo bucólica, adeptos que são de filosofias de vida hippies, alternativas ou zen, alguns até mesmo inspirados pela lembrança da fábula de Dom Quixote. Quanto à receptividade do público aos versos oferecidos, esta é variada: por exemplo, os entusiastas do descobrimento de incursões poéticas que não aquelas presentes nos círculos literários, acadêmicos e mesmo populares, no sentido de grande exposição, normalmente os aceitam avidamente; de modo semelhante procedem aquelas boas almas apenas interessadas em colaborar com os versejadores; e há ainda aqueles que simplesmente os recusam, com veemência ou não.
Isso sabido, tem-se a introdução ao episódio que lhes hei de narrar a seguir e que, por sua vez, por mais que ostente natureza fantástica e sobrenatural, pode ser confirmado e reafirmado impreterivelmente por fontes idôneas, como um colega de pena, por sinal dono da idéia de levar a anedota a prelo, testemunha indireta do ocorrido. Portanto, coloco a veracidade de minha narrativa tranqüilamente a toda e qualquer prova. Ei-la.
O episódio ocorreu, naturalmente, na citada cidade de São Paulo, por volta das sete horas duma noite do mês do cachorro louco, agosto, nas imediações de uma tradicional Universidade, uma livraria e um teatro, no bairro da Consolação ou Vila Buarque, a saber. Quem o protagoniza é um segundo colega de pena, com já dois romances publicados, Memórias de um Amnésio, de mais de seiscentas páginas, e o novíssimo No Silêncio da Bala, autor de vasto catálogo de novelas, contos e ensaios, amante da boa vida e de mulheres, mas com sabido feitio, desde a mais tenra juventude, pelas temáticas do oculto, de magia e mistério, da bruxaria e feitiçaria, e até mesmo dos cultos, da santeria, vodu, da maçonaria e sociedades secretas, da brincadeira do copo, do jogo do bicho, enfim, do misticismo em geral. Tal "fascínio", se é que podemos classificar como tal, não passava, a vista grossa, disso mesmo, de curiosidade, de interesse externo, nunca chegando de fato aos vieses práticos, até por convicção, cautela e muito cuidadinho do colega.
Pois bem, estava o protagonista, o colega de nome ..., caminhando pelas cercanias da área descrita e delimitada acima, depois de jantar num café, indo ao encontro de convivas para uma certa comemoração da qual não sei ou a qual não posso precisar com exatidão, mas, de qualquer maneira, irrelevante para esta história. Ao passar em frente do teatro, num arremedo de ladeira, eis que o colega depara-se com um daqueles autores cujo perfil foi traçado na introdução, vendendo seus poemas: um homem de seus quarenta e poucos anos, esquálido, longos cabelos preto-acinzentados, bigode e barba de profeta sem ver gilete há muito, medalhão pendurado no pescoço, roupas largas e a fleuma que vem de graça com o ofício.
Sendo também um homem de letras, é certo que o colega ... não despreza tal meio de atuação. Porém, tendo um compromisso, não estava com tempo para parar e ouvir a propaganda do homem, que, como esperado, abordou-lhe com o bordão de costume, já a exibir os panfletos:
– Gosta de poesia?
O colega ..., procurando uma maneira direta e prática de dispensar o ofertante, mas ao mesmo tempo sutil o suficiente para não ofendê-lo ou causar má impressão, rapidamente lembrou-se de uma colocação feita por um moço na mesma situação, o qual avizinhou-se na fila de um cinema, onde seria projetada a cinebiografia de um cantor de música country. Sem demora e sem pensar duas vezes, sabiamente valeu-se do instantâneo.
– Obrigado, mas o que eu leio mais são livros espíritas.
Cabe aqui salientar que a referência ao espiritismo nada tem a ver com os interesses escusos do colega ... comentados acima; tal associação nem mesmo passou-lhe pela cabeça, respeitando ele o espiritismo como religião i.e. doutrina i.e. filosofia de vida e nunca colocando-o em par com ocultismos. O que disse foi apenas a reprodução da resposta dada pelo rapaz na fila do cinema.
O homem então respondeu:
– Não tem problema.
Por motivos de força estranha, o colega ... deteve-se de caminhar mais adiante e voltou-se novamente para o homem, apenas para se arrepender de imediato de tê-lo feito, tão tenebrosa foi a presença que então se deu.
– Pois eu próprio sou um espírito de uma pessoa morta – continuou o homem.
O colega ... estava, afinal, na presença de um espectro! Uma entidade vinda do além. A aparição então tomou uma forma pavorosa, de manto negro e aspecto que me recuso a descrever aqui de tão horripilante, como sulcos na madeira formando a cara do diabo. Vale frisar que, de modo algum, afirma-se aqui que a sinistra figura provinha das bandas de Satã, longe disso, é apenas uma figuração utilizada com o intuito de simbologia descritiva (muito menos é feita apologia a tal natureza, se é que assim se pode chamar). Antes que o colega ..., boquiaberto, pudesse esboçar qualquer outra reação que não a de pavor e imobilidade, o espectro desapareceu num piscar de olhos, dissolvendo-se numa nuvem verde-musgo. Mistério.
Posteriormente ao episódio, e por certo superados os impactos de encontro tão inusitado e macabro, o colega ... narrou o ocorrido em diversas e variadas ocasiões, nunca se contradizendo e sempre com grande precisão de factualidade, o que, somado a minha amizade e admiração, garante-me embasamento para a defesa da autenticidade do relato. Contradigam-no, e àquele que o fizer com sucesso pagarei cinqüenta reais!
A moral, meus caros, de tão surpreendente anedota, é aquela: há mais mistérios entre o céu e a Terra do que entre uma boceta virgem e uma que já levou pau.
É de conhecimento geral que, na megalópole paulistana, capital opulenta do estado, é muito habitual, para aqueles que têm o costume de freqüentar pontos de concentração cultural e arredores, encontrar autores de poesia a abordar transeuntes no intuito de ofertar e vender sua produção lírica, seja impressa em papéis avulsos, geralmente ao preço de um real ou dois, seja compilada em volumes, comumente bancados do bolso do próprio autor. Não raro, tais self-made men portam-se de maneira despojada, até algo bucólica, adeptos que são de filosofias de vida hippies, alternativas ou zen, alguns até mesmo inspirados pela lembrança da fábula de Dom Quixote. Quanto à receptividade do público aos versos oferecidos, esta é variada: por exemplo, os entusiastas do descobrimento de incursões poéticas que não aquelas presentes nos círculos literários, acadêmicos e mesmo populares, no sentido de grande exposição, normalmente os aceitam avidamente; de modo semelhante procedem aquelas boas almas apenas interessadas em colaborar com os versejadores; e há ainda aqueles que simplesmente os recusam, com veemência ou não.
Isso sabido, tem-se a introdução ao episódio que lhes hei de narrar a seguir e que, por sua vez, por mais que ostente natureza fantástica e sobrenatural, pode ser confirmado e reafirmado impreterivelmente por fontes idôneas, como um colega de pena, por sinal dono da idéia de levar a anedota a prelo, testemunha indireta do ocorrido. Portanto, coloco a veracidade de minha narrativa tranqüilamente a toda e qualquer prova. Ei-la.
O episódio ocorreu, naturalmente, na citada cidade de São Paulo, por volta das sete horas duma noite do mês do cachorro louco, agosto, nas imediações de uma tradicional Universidade, uma livraria e um teatro, no bairro da Consolação ou Vila Buarque, a saber. Quem o protagoniza é um segundo colega de pena, com já dois romances publicados, Memórias de um Amnésio, de mais de seiscentas páginas, e o novíssimo No Silêncio da Bala, autor de vasto catálogo de novelas, contos e ensaios, amante da boa vida e de mulheres, mas com sabido feitio, desde a mais tenra juventude, pelas temáticas do oculto, de magia e mistério, da bruxaria e feitiçaria, e até mesmo dos cultos, da santeria, vodu, da maçonaria e sociedades secretas, da brincadeira do copo, do jogo do bicho, enfim, do misticismo em geral. Tal "fascínio", se é que podemos classificar como tal, não passava, a vista grossa, disso mesmo, de curiosidade, de interesse externo, nunca chegando de fato aos vieses práticos, até por convicção, cautela e muito cuidadinho do colega.
Pois bem, estava o protagonista, o colega de nome ..., caminhando pelas cercanias da área descrita e delimitada acima, depois de jantar num café, indo ao encontro de convivas para uma certa comemoração da qual não sei ou a qual não posso precisar com exatidão, mas, de qualquer maneira, irrelevante para esta história. Ao passar em frente do teatro, num arremedo de ladeira, eis que o colega depara-se com um daqueles autores cujo perfil foi traçado na introdução, vendendo seus poemas: um homem de seus quarenta e poucos anos, esquálido, longos cabelos preto-acinzentados, bigode e barba de profeta sem ver gilete há muito, medalhão pendurado no pescoço, roupas largas e a fleuma que vem de graça com o ofício.
Sendo também um homem de letras, é certo que o colega ... não despreza tal meio de atuação. Porém, tendo um compromisso, não estava com tempo para parar e ouvir a propaganda do homem, que, como esperado, abordou-lhe com o bordão de costume, já a exibir os panfletos:
– Gosta de poesia?
O colega ..., procurando uma maneira direta e prática de dispensar o ofertante, mas ao mesmo tempo sutil o suficiente para não ofendê-lo ou causar má impressão, rapidamente lembrou-se de uma colocação feita por um moço na mesma situação, o qual avizinhou-se na fila de um cinema, onde seria projetada a cinebiografia de um cantor de música country. Sem demora e sem pensar duas vezes, sabiamente valeu-se do instantâneo.
– Obrigado, mas o que eu leio mais são livros espíritas.
Cabe aqui salientar que a referência ao espiritismo nada tem a ver com os interesses escusos do colega ... comentados acima; tal associação nem mesmo passou-lhe pela cabeça, respeitando ele o espiritismo como religião i.e. doutrina i.e. filosofia de vida e nunca colocando-o em par com ocultismos. O que disse foi apenas a reprodução da resposta dada pelo rapaz na fila do cinema.
O homem então respondeu:
– Não tem problema.
Por motivos de força estranha, o colega ... deteve-se de caminhar mais adiante e voltou-se novamente para o homem, apenas para se arrepender de imediato de tê-lo feito, tão tenebrosa foi a presença que então se deu.
– Pois eu próprio sou um espírito de uma pessoa morta – continuou o homem.
O colega ... estava, afinal, na presença de um espectro! Uma entidade vinda do além. A aparição então tomou uma forma pavorosa, de manto negro e aspecto que me recuso a descrever aqui de tão horripilante, como sulcos na madeira formando a cara do diabo. Vale frisar que, de modo algum, afirma-se aqui que a sinistra figura provinha das bandas de Satã, longe disso, é apenas uma figuração utilizada com o intuito de simbologia descritiva (muito menos é feita apologia a tal natureza, se é que assim se pode chamar). Antes que o colega ..., boquiaberto, pudesse esboçar qualquer outra reação que não a de pavor e imobilidade, o espectro desapareceu num piscar de olhos, dissolvendo-se numa nuvem verde-musgo. Mistério.
Posteriormente ao episódio, e por certo superados os impactos de encontro tão inusitado e macabro, o colega ... narrou o ocorrido em diversas e variadas ocasiões, nunca se contradizendo e sempre com grande precisão de factualidade, o que, somado a minha amizade e admiração, garante-me embasamento para a defesa da autenticidade do relato. Contradigam-no, e àquele que o fizer com sucesso pagarei cinqüenta reais!
A moral, meus caros, de tão surpreendente anedota, é aquela: há mais mistérios entre o céu e a Terra do que entre uma boceta virgem e uma que já levou pau.
