A senzala em chamas
Gemeram entre cabeças a ponta do esporão,
a folha do não-me-toque
e o medo da solidão
– Zé Ramalho
Matei minha garota à beira do rio. Gotas de chuva caem feito doença venérea e peste no infinito sem-fundo do precipício da boa ventura, meio a uma clareira de fogo. Bonança e mau presságio, toda minha vida num solo de guitarra. A polaquinha corta a dama-da-noite com uma gilete.
– Te assombra uma grande mentira em forma de pecado.
Sombra de valquírias e ilusão de distorção; até parece que se pode levar-te a sério. Corri até o desfiladeiro, mas já era tarde demais. Um Mustang e uns vinte cartuchos foi o que mais me restou; quatro dias pela frente e hora extra nos necrotérios, que recompensa. Um lobo da estepe barganha a alma com o diabo, que beleza, a salvação espera por todos na outra margem desse pântano. Foi açoitado com línguas de trapo até confessar suas verdades numa metalingüística que não existia. Não os convenceu. Deleitem-se com pornografia póstuma no harém das canções noturnas.
– Teu irmão me deu um colar de pérolas.
Tomei o bonde na frente da loja de penhores. Era conduzido por uma mula castrada e de olhos vendados, ia a toda velocidade, tanto que, por pouco, eu ainda estaria mascateando um velho guarda-chuva ou dormindo na estação de metrô, dentro de um caixote de couro. Apesar da venda, a mula tinha belos olhos vermelhos (seriam apavorantes não estivessem vendados), como um coelho.
A carcaça de um dançarino sentou-se nas pedras para meditar. “Em algum lugar nas profundezas, ele ainda datilografa – e é aí que está a verdadeira beleza: poesia, pés descalços, jazz e sua obsessão com garotinhas”. Ouvindo a melodia da pastorella da misantropia badalar que nem um sino em suas entranhas, o artista ajoelha-se nas brasas e se lembra do gênio esquecido na vigésima-quinta hora.
Soube de seu caso de amor com as pedras. Horror de menina mimada, não acredito em você. Nem o calor da Louisiana faz o tempo passar tão devagar. Ou tão depressa?
Mais lenha. Para incendiar as escolas, bancos, partidos políticos, avenidas, universidades, shopping centers e gentes. Enquanto isso, o sexisme e a discriminação são usados indiscriminadamente por adolescentes lésbicas francesas como manifestação anti-moda. Trata-se de uma análise psicodélico-social fascista da vida em Suburbia, nos terreiros de umbanda, country clubs, fanatismo religioso, salões de baile, dormitórios e por aí afora.
Àqueles que restaram é que dedico meu coração, que é tão vagabundo.
We have come a long, long way
Only to die without knowing the pain
a folha do não-me-toque
e o medo da solidão
– Zé Ramalho
Matei minha garota à beira do rio. Gotas de chuva caem feito doença venérea e peste no infinito sem-fundo do precipício da boa ventura, meio a uma clareira de fogo. Bonança e mau presságio, toda minha vida num solo de guitarra. A polaquinha corta a dama-da-noite com uma gilete.
– Te assombra uma grande mentira em forma de pecado.
Sombra de valquírias e ilusão de distorção; até parece que se pode levar-te a sério. Corri até o desfiladeiro, mas já era tarde demais. Um Mustang e uns vinte cartuchos foi o que mais me restou; quatro dias pela frente e hora extra nos necrotérios, que recompensa. Um lobo da estepe barganha a alma com o diabo, que beleza, a salvação espera por todos na outra margem desse pântano. Foi açoitado com línguas de trapo até confessar suas verdades numa metalingüística que não existia. Não os convenceu. Deleitem-se com pornografia póstuma no harém das canções noturnas.
– Teu irmão me deu um colar de pérolas.
Tomei o bonde na frente da loja de penhores. Era conduzido por uma mula castrada e de olhos vendados, ia a toda velocidade, tanto que, por pouco, eu ainda estaria mascateando um velho guarda-chuva ou dormindo na estação de metrô, dentro de um caixote de couro. Apesar da venda, a mula tinha belos olhos vermelhos (seriam apavorantes não estivessem vendados), como um coelho.
A carcaça de um dançarino sentou-se nas pedras para meditar. “Em algum lugar nas profundezas, ele ainda datilografa – e é aí que está a verdadeira beleza: poesia, pés descalços, jazz e sua obsessão com garotinhas”. Ouvindo a melodia da pastorella da misantropia badalar que nem um sino em suas entranhas, o artista ajoelha-se nas brasas e se lembra do gênio esquecido na vigésima-quinta hora.
Soube de seu caso de amor com as pedras. Horror de menina mimada, não acredito em você. Nem o calor da Louisiana faz o tempo passar tão devagar. Ou tão depressa?
Mais lenha. Para incendiar as escolas, bancos, partidos políticos, avenidas, universidades, shopping centers e gentes. Enquanto isso, o sexisme e a discriminação são usados indiscriminadamente por adolescentes lésbicas francesas como manifestação anti-moda. Trata-se de uma análise psicodélico-social fascista da vida em Suburbia, nos terreiros de umbanda, country clubs, fanatismo religioso, salões de baile, dormitórios e por aí afora.
Àqueles que restaram é que dedico meu coração, que é tão vagabundo.
We have come a long, long way
Only to die without knowing the pain

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