quinta-feira, junho 29, 2006

Curruíra zambeta (I)

Dez do segundo tempo. Círculo.
- Círculo, de novo.
Quiquina no vão da porta. Barulho da outra porta, rangendo? não lembro. Quiquina no vão da porta.
Oi. (Envelope).
- Isso é seu, eu explico depois.
- ...
- Obrigado.
- ...
Quiquina no vão da porta.
- Eu que agradeço.

(original em 10.5.05)

Versinho em Fé Menor sustenido

Verdade verdadeira

Só daquelas que a gente encontra
Na feira

(6.6.05)

Curruíra zambeta (II) de Natal fora-de-época

Seu Jesusinho no presépio pós-moderno, que é bucólico e verde e bonito. Três reis magos gambitos. A estrelinha que passa.
Tem vaquinha, ovelhinha, pastorzinho. Mas não tem formiguinha.
- Ainda bem.
Toca flautinha, sanfoninha, desgosto do rodízio.
Seu Jesusinho no presépio. Quiquina no vão da porta.
...
Veneno.

(10.5.05)

quinta-feira, junho 22, 2006

Tragos esquecidos de um verão passado na companhia de estranhos

Linkáme a tus sueños de flores de marfim regadas com cinzano e de estalinhos e desastres cristalinos sob a forma de moçoilas.

– Vamos ao cinema.
– O senhor é muito elegante.

Fervor (des)comedido, o ocaso gazeteiro bombeando Stella Artois quente em suas artérias, naturalmente velhacaria da parte de Lucíola, e daquela menina areia que tocava guitarra flamenca na porta da capela. Prólogo de aparências: puro engodo em estado de repouso (parado).

Tremendo corre-corre lá fora! O moço amoita-se debaixo da flor de laranjeira sem fazer barulhinho sequer, mas é denunciado pela água-de-colônia. Vítima de feitiçaria com língua de vaca dentro duma bilha (do tempo do onça), o amoitado acabou condenado, coitado. Seria ele a bruxa?

Um animal vem a todo vapor. Viborinha, aquela moça. Pudica que só, frente-e-e-verso. Olhá lá.

– Dolores no cais do porto.
– Sumiu minha cartola, já nem sei mais quando, como e donde. Teria sido no bordel? Tipo um cramulhão, sabe?
– Tamanha era sua vontade de viver que bebeu cicuta pensando que era leite.
– Parecia um deus grego, gente. Filósofo.

Nada como tais quitutes tão exóticos, não? Atendendo a pedidos, a paráfrase (minueto em tom menor) duma já falecida tia senhora, mas muitíssimo gente fina, a quem acabei de ser apresentado mais ou menos: "Só a Poesia salva". Ei-la:

A vida é muito poemática
Diz o velhaco, poeta rabugento
Ao guardar a dentadura.

Bestiário vag(ue)ando mares de cânfora, razão não tens. Un chat méchant in a full moon fever. Pela manhã e a noite toda no salão de jogos. O outro, pobre diabo, depois de absolvido e curado levou uma saraivada de balas a céu aberto.

(É muita buniteza junta)

segunda-feira, junho 12, 2006

Das agruras e desmesuras de ser um cão vadio

O ó da liberdade é a estrada bloqueada pelo corpo de um cavalo morto. Em jogo, a vida do visconde (de) Caramuru & a anarquia de seus discípulos.

– Isso se chama subterfúgio.

Na beira da estrada, o despero dum toureiro descordado alonga-se dentro de sapatilhas de balé, sabendas de Madalena Michelle, em grande estilo. Fides reformata et semper reformanda est. A ingratidão da ribalta, imagine, voa em direção à lua carregada de bichinhos (menos a cobrinha, entretida usando jujubas na sinuca de bico).

Belo quadrado indecifrável, de onde fugiu o diabrete rumo ao desconhecido, disposto a deleitar-se no roubo do pólen da flor de maracujá. Partículas de uma espaçonave monobloco da tribo dos voduns 46 a.C.

– Muito engraçado.
What’s the diff’rence between a lullaby and a field holler?
– Em caso de emergência, reze.

Amuado coração cigano. Clarividência escrita(o) em esperanto, repinique versado em mentira e tremeliques cor de acre. Marlonbrando e bebendo licor de amêndoas na saleta do comendador, caixa de fósforos, chegamos à conclusão de que é na verdade José de Alencar high-tech na casa do caralho.

– Como podes falar assim de ti mesmo?
– Estás enamorado de outra.

De manhã cedo na floresta de asbestos. Caramujos em extinção invadiram a loja de fantasias. Queremos um doce. Incidentalmente, não há nada realmente extraordinário debaixo da cerejeira. Se me dão licença, vou atirar migalhas da varanda (enquanto há tempo) na calada da noite. Longa noite de Chet Baker.

– Os mansos herdarão a terra.
– Todos morreram de cólera.

Collarless workers descendo discretamente a ladeira, embalados pelo som da algazarra proveniente da latrina das vaidades. Digite uma pergunta, fato consumado, olhares infantis e/ou pensamentos curiosos. Data comemorativa: todos são os dias em nome de sua mãe-barra-javali. Tatu/moça. Canção duma balada de outono: dá mais que chuchu na serra.

Farsante dos tempos do ragtime, tão ressabiado quanto um pedregulho envolto em barbantes a granel. Fugiu do abrigo nuclear.

– O que há de errado com esta foto?
– A vida fora da sarjeta é o armistício sem dono levado a cabo por um arcanjo entorpecido.

domingo, junho 11, 2006

Teatrinho em Kodachrome

para Luisa Micheletti

Nuestra Señora de Los Angeles.

Quais os meios escusos para tornar um frenesi pueril/mente sexy? Juro que ouvi a calçada cantando para mim.

Eu não sou Deus. Os hóspedes dos canhões de Navarone protestando o incesto quando do enterro de Burgess Meredith, feel Catwoman on the rocks. Oh, that’s beautiful.

Nada é tão inexorável quanto um banjo desafinado de vibrações post-modernas, geração perdida no espaço que (não) pode ser ocupado por dois corpos ao mesmo tempo em que Ziegfried gets high on rebellion, cuspindo na cara dessas backlands d’amour.

– Qual é o teu nome e o que buscas?
– Caçadores lançam-se do penhasco.

Som e visão mais leves do que bombas cavalgando uma mula-sem-cabeça, lado a lado a velha companheira de jogatina de Vincent Furnier, ainda viva do alto de seus muitos anos.

Baby, if you wanna be my lover, you better take me home.
– Há um cabaret em frente a um ferro-velho a poucos metros daqui.
– Compraste na feira de verdades?
– Inflamável feito um toca-discos.

Filme bom. Assujeitamento. O bicho correu em direção à praia e outras crônicas inadequadas ao convívio social. Enforcado com uma réplica em 3x4 da bandeira da Guatemala, o homem que pariu o facínora olhou de soslaio para a mocinha vendedora de sapatos, que ali não se encontrava.

– Diga-me que não é mentira.
– São todos selvagens.
– Quer um e-ticket só de volta? Enviamos por carta.
– Em tempo de você mudar de idéia e deixar de ser idiota.

Fui ao Kennel Club para pegar a maleta antes que esquecessem e a sacrificassem envenenando-a com petróleo. Auspicioso, Jason volta do inferno. Sons of the beloved à sombra do subterrâneo descansam.
Todas as consoantes, caminhando em linha reta, chegaram ao mesmo lugar de onde partiram in the first place. She won Nashville Star e bateu uma fotografia do banco de pedra-pome na praça em frente.

– Acredita em superstição?
Sizzling hot having a bad hair day & noite açucarada.
– Poderia a desordem dos produtos alterar os fatores?
– Seu coração é grande como um trem.

Um olho cigano leu a minha mão e me disse ser analfabeto de nascença. Ponham-no de volta a cabeça. Corre, e chega antes das nove.

(original em 3.6.06)

Em forma de diálogo e outros

– Onde está Ceci, a pequena notável?
– Acho que ela é maconheira.
Non parlo italiano.

Enquanto isso, estamos em guerra com o mundo etéreo das violáceas. Retornando ao calabouço da luxúria, Adelaïde Fernanda livrou-se das amarras de seu corpete e cinta-liga. À sombra do vale, toda e qualquer coisa se aproxima muito mais do que aparenta quando vista pelo espelho retrovisor.

Cena: parafusos em fúria e estilhaços flamejantes de doces árabes correm feito loucos pela estrebaria. Quid est verita? Eméritos acadêmicos da Universidade prestaram suas homenagens. Bela bosta basta. Barcelona tomada por bandoleiros.

– A que horas? Por que?
– Não há.
– Os séculos comprovam.
– Mas também não é nenhuma qualidade.
– O salário do pecado é a morte.

Duas singulares figuras, silhuetas assimétricas, suaves bailarinas gêmeas sodomizadas pelos córneos de sua própria promiscuidade. O jardineiro à mercê do cão raivoso, bem-aventurado animal de três cabeças, mas que nasceu com uma só. As outras duas perderam-se na vida à custa de aventuras, quem diria no parto. Je lui rendre visite.

– Sabes dançar?
– Compreendo o que seja.
– É por isso que mantém vigília?
– São apenas abstrações de um todo maior. Tem certeza?
– Não se assustem, porque eu vi.

Reina a princesa vestida de verde, de saia rodada e olhar andrógino algo anglo-saxão. Fumando charutos e cigarrilhas, os últimos, sem interromper, no entanto, o fluxo anterior. Sim. A história é longa e a vida é curta, meus amigos.

Domiciano P. de Léon escreveu todas as páginas de/vidas, poderia ter morrido na sarjeta, mas perdeu as botas no salão de baile e comprou um camelo. Os números não justificam os fins, quando o picadeiro lotado treme nas bases. Uma bela charada. Gosta de versinho?

(original em 1.6.06)

Da natureza do chá-de-cadeira-de-balanço

Fosse o mundo criado em quatro horas, entrariam os preás em extinção. Do mesmo modo, Leôncio preferiu leiloar sua garrucha de família num almoxarifado em Amsterdã.

O usineiro Torquato e o sacristão presenteariam o infante com um olho de vidro comprado na feirinha hippie, mas o artefato quebrou-se durante a viagem, quando a caravana foi interpelada por um grupo de carreteiros traficantes de baralho.

Perdi-me nas anáguas da Virgem de Guadalupe e depois nos cabelos de fogo, ao ponto que nenhuma fotografia consegue traduzir, nem se fosse estação de morangos.

Leve sessenta, pague cinqüenta, ou era o contrário, pergunta o cacique Beckenbauer, crente de que nada tem senão um pé-de-coelho. Pode muro virar gente? Modeuso queira que seja mentira, e das grandes, porque se correr o bicho pega e, se ficar, já está todo mundo fodido mesmo.

Já dizia o Velho Guerreiro, morar debaixo da colina não é fácil, ainda mais quando tem que ficar metendo o pé na porta e bebendo rien que vinho do Porto. Bem como:
Lornhão. lor.nhão sm (fr lorgnon): Luneta com cabo, usada especialmente por senhoras ou à la Senor Abravanel. Veja lornhom. Em polonês, lornetka.

Toda a riqueza cultural proveniente das Ilhas Canárias não é suficiente para acobertar os excessos sóciogeográficos de mui glorioso testamento i.e. testemunhamento dum certo Jerônimo, ele sim, o Rei do Sertão. Lua minguante não cria musgo, vive o poeta.

Deitada nas folhas da relva, a bela Adelaïde Fernanda banha-se nua em pêlo ao som de uma harpa singrante.

Ladrão que rouba ladrão distribui a grana em 15 sacolinhas vermelhas, enviadas para o Vietnã numa remessa Sedex 10. Tem louco para tudo, menos pra fazer as coisas direito, aqui se faz, aqui se paga. É grave, doutor? O senhor tem três segundos de vida; quem, eu ou o doutor? Tarde demais.

E ainda não é suficiente.

(original em 11.5.06)